Compositor: Ronald Hora de São Pedro
A manhã chega
O fim não chega
Chamam primeiro o número de funcionário, não o nome
Aperto a gravata e o pescoço aperta junto
Não é o tempo que se gasta — é a vida que se desgasta
Resultados, números, planilhas de avaliação
Kpi acima dos batimentos do coração
A razão de viver vira bater o ponto
Descansar é um pecado imperdoável
Por trás da cidade organizada
A humanidade vai sendo organizada também
Trem lotado, fadiga alinhada em fila
Ninguém cai — apenas vai quebrando por dentro
Desespero otimizado
Sem desperdício e sem saída
A empresa vive, eu desapareço
Hoje sou mais apagado do que ontem
A empresa vive, eu desapareço
Até meu nome virar número
Trabalhe até desaparecer — esse é o plano global
Sorria por fora, apodreça por dentro
Seu valor medido por hora, queimado em gráficos
Eles não veem um corpo — só veem peças
A correria se veste de lealdade
A exaustão é chamada de maturidade
Você é substituível — isso é sabido
Mas ainda dizem: Dê mais do que deveria
Dias de doença parecem crimes morais
Descansar é preguiça na mente corporativa
Eles lucram com seu silêncio e sua dor
E se fingem surpresos quando o coração não aguenta a pressão
Se parar, acabou
Se você parar, desaparece
Continue trabalhando
Ou será substituído no próximo ano
Sonhos viram bicos
A vida vira hora extra
Quando volto para casa, já não sou eu
O corpo começa a quebrar primeiro
O coração já pediu demissão faz tempo
Se esforce, vira uma faca
Todo mundo é igual vira mentira
O nome que cai vira notícia
No dia seguinte, a cadeira já está ocupada
A empresa vive, eu desapareço
A empresa respira enquanto eu me decomponho
A empresa vive, eu desapareço
Imortalidade corporativa, humanos descartáveis
Eles enviam um pedido formal de desculpas, publicam
Condolências em tons de cinza, e anunciam uma vaga antes
Mesmo da sua cadeira esfriar